quarta-feira, 30 de abril de 2014

Microconto #2

Era pobre. Uma espécie de Macabéa gordinha. Tirou um batom cintilante da bolsa. Deve ter custado umenoventenove. A tampa era de plástico vagabundo. O batom também era vagabundo. Ela também era vagabunda. Passou o batom desajeitadamente. Logo se via que ela não tinha prática. Parecia uma criança. O batom não deslizava. Agarrava nos lábios ásperos e ressequidos. Terminou. Esfregou os lábios um no outro. Sorriu um sorriso bobo e inocente. Não estava bonita. 

domingo, 27 de abril de 2014

sábado, 26 de abril de 2014

O globo de neve

Olhava para o nada do lado de fora da janela, olhava para o tempo surpreendentemente fechado. Desviou seus olhos lentamente das folhas das poucas árvores que balançavam perto dos postes e, cantando uma música em voz fraca - já estava cantando antes? -, olhou a velha garrafa d’água e a máquina de escrever verde, em que nunca conseguira escrever nada. Então olhou os globos de neve. Primeiro, viu o de Veneza. Depois, Paris. Rio. San Diego. Nova York. Rapidamente procurou os outros dois com um sobressalto, como se tivesse os perdido. Aliviada, viu que os dois continuavam onde sempre estiveram. Disney e Madrid.

Não comprara nenhum daqueles bibelôs de que tanto gostava. Foram presentes de amigos e familiares. Viu o Cristo dentro de sua redoma. A torre Eiffel ao lado da Estátua da Liberdade. Uma gôndola e um casal apaixonado. O Mickey vestido de “Aprendiz de Feiticeiro”. Todos lindamente aprisionados em suas cápsulas perpétuas. Sendo afogados pela mesma água parada há anos.

A chuva agora agitava as árvores e cuspia nas janelas. De repente, sentiu-se bem por estar seca e protegida. Com a mesma rapidez, sentiu-se igualmente mal. Queria sentir o vento e queria que a chuva cuspisse na sua cara. Engraçado esse ímpeto, ela não era assim. Mas foi. Nem calçou os chinelos. Foi do jeito que estava. Antes de ir, no entanto, deixou sua mão libertar os jovens apaixonados da prisão de vidro.

A chuva entrando pela janela aberta aumentava a poça em que a gôndola finalmente velejava.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Mickey vai à guerra - A influência da Disney na 2a Guerra Mundial

Obs1: o post tá grande, mas vale a pena ;)
Obs2: não consegui achar todos os vídeos com legendas, mas a maioria deles é tranquila de entender :) Os nomes dos curtas são links para o YouTube.
Obs3: Este post é adaptado de um trabalho que fiz para a faculdade, por isso a extensão.

Todos sabemos que um evento político, social e econômico da dimensão de uma guerra mundial afeta  a maior parte da produção cultural dos países envolvidos, ainda que indiretamente. É claro que não é apenas a dita "alta cultura" que se engaja; as indústrias cinematográfica e fonográfica, por exemplo, também são altamente influenciadas por guerras. O que poucos sabem, no entanto, é que a Disney - sim, leitor, a Disney do Mickey e das princesas - não só foi altamente influenciada pela 2a Guerra Mundial como também produziu inúmeros curtas animados como propaganda de guerra.



Uma das influências sofridas foi uma questão técnica: o formato das animações produzidas pela empresa entre 1940 e 1949. Dos 10 filmes lançados, 7 são coletâneas de curtas. A esse fato existem duas possíveis explicações, sendo a primeira delas econômica: como os filmes não podiam ser exibidos na Europa devido à guerra, perdiam muito de sua bilheteria. Apesar de a Disney ainda ter feito outros três longas nesse período (Pinóquio, de 1940, Dumbo, de 41, e Bambi, de 42), possíveis de serem produzidos devido ao grande lucro gerado por Branca de Neve e os Sete Anões (1937), no período mais crítico da guerra a empresa só produziu curtas (de 42 a 45).

A outra razão provável para a produção de curtas foi a dedicação quase integral da Disney a criar uma vasta propaganda de guerra para o exército e para a população civil, contando com mais de 200 curtas encomendados pelo governo americano a partir de 1941 - ano em que os EUA entram na guerra (o que acontece logo depois do lançamento de Dumbo). Assim, as outras produções recebiam menos investimento no geral, e, por serem mais fáceis de produzir, curtas seriam a produção mais adequada aos tempos de guerra. No período pós-guerra, a razão por não optarem por longas foi uma crise financeira que acometeu os estúdios, já que a propaganda, principal produção durante a guerra, não gerava lucros suficientes. Um projeto de curta feito por Savador Dalí em parceria com o próprio Walt Disney teve que ser adiado justamente por causa da crise, que só terminou completamente em 1950 com o lançamento de Cinderela.

A propaganda de guerra em si é escancarada. Parte dos filmes começa e termina da mesma forma: no início, há personagens da Disney (Donald, Minnie, os sete anões e até Pinóquio) incentivando a população a fazer algo e, no final, são mostradas cenas de guerra, em animação, sempre com algum navio, avião ou tanque nazista sendo explodido por tropas estadunidenses. Apesar deste padrão, cada curta tem suas particularidades e elas devem ser exploradas.



The New Spirit, de 42, protagonizado por Donald, traz o pato ouvindo um aviso pelo rádio: “Nossa costa foi atacada. Seu país inteiro está se mobilizando para a guerra. Seu país precisa de você. Você é um americano patriota? Você fará a sua parte? Então há algo importante que você pode fazer. Você não ganhará uma medalha por fazer isso. Talvez seja um sacrifício da sua parte, mas será uma ajuda vital para o seu país: seu imposto de renda. (...) Seu país precisa de impostos para armas, impostos para navios, impostos para a democracia, impostos para vencer o Eixo!” (taxes to beat the Axis). Esse discurso de coerção pode ser visto, de certa forma, em quase todos os curtas lançados no período: o patriotismo e a democracia como motivação para ajudar o país na guerra são temas recorrentes nesses filmes.



No ano seguinte, um novo curta sobre os impostos foi lançado, The spirit of 43, que tinha o mesmo final de The New Spirit, mas com o início um pouco diferente. Desta vez, Donald está em dúvida se guarda ou gasta seu pagamento, e uma versão mais rica e erudita de si mesmo, com a bandeira americana ao fundo, surge para convencê-lo a poupar, enquanto uma representação pobre e “caipira”, fantasiada de Hitler, o influencia a gastar. O narrador diz: “Graças a Hitler e Hirohito, os impostos estão mais altos que nunca antes. (...) Cada centavo que você gasta com algo que não precisa é um dólar com o qual você ajuda o Eixo.” Como se pode observar, a cada ano que se passava, as propagandas ficavam mais explícitas e agressivas.

Outro curta destinado à população civil, especificamente às “housewives of America”, Out of the frying pan into the firing line traz Minnie cozinhando e, na hora de jogar a gordura da frigideira para Pluto comer, o rádio, como principal meio de comunicação da época, diz para ela guardar a gordura e entregar em algum posto de coleta “patrioticamente cooperativo”. A razão: a gordura seria transformada em glicerina, que se transformaria em explosivos.

Alguns curtas, como All Together e Seven Wise Dwarfs, mostram os personagens incentivando a população a fazer doações a favor das forças armadas e “investir na vitória”. Quem doasse, receberia um certificado, produzido pela Disney, chamado “war saving certificate”. Nos curtas, frases como “keep your money fighting” ou “buy more and more war savings certificates” ou, ainda, “you serve by saving, you save by serving” aparecem o tempo todo ao redor dos personagens.




Reason and Emotion, de 1943, mostra que a razão deve ser sempre privilegiada, e que Hitler controla a população alemã através das emoções: medo, simpatia, orgulho e ódio “pelo modo de vida livre e democrático”. O que muitos estadunidenses atingidos pela propaganda da Disney não perceberam é que, talvez com exceção do medo, todas essas emoções também eram transmitidas pelos curtas – a simpatia pelo governo graças aos personagens bonitinhos e inocentes da Disney, o orgulho de ser um americano livre, democrata e patriota e o ódio pelos nazistas. Segundo o filme, a emoção (caracterizada por um homem das cavernas, em contraposição à razão representada por um homem de negócios) deveria ser uma emoção que “ama o seu país, sua liberdade, sua vida”, e deveria não ser desprezada, mas controlada pela razão.

Os dois curtas mais conhecidos e polêmicos, no entanto, são Der Fueher's face, vencedor do Oscar de melhor curta em 43, e Education for death. Ambos foram censurados, depois da guerra, pelo próprio Walt Disney, que disse que não seriam mais relançados (a maioria dos curtas tem hoje em dia no YouTube, mas creio que eles só foram lançados ao público em DVD com a coleção Disney Treasures. A série, que traz várias animações clássicas, não foi lançada completa no Brasil, e o volume Disney On the Front Lines, que fala sobre os curtas de guerra, foi um dos que ficou de fora). O primeiro traz o Pato Donald como trabalhador de uma fábrica nazista de munições, controlado o tempo todo por militares. Os nazistas são caracterizados de forma deformada, sendo muito altos, magros ou gordos, e, no cenário, muitos elementos têm a forma da suástica: postes, árvores, números do relógio. Isso passa a ideia de que os alemães viviam num ambiente onde o nazismo estava sempre presente, o que é reforçado pela saudação “Heil, Hitler”, repetida exaustivamente pelos nazistas, por Donald (que saúda Hitler até dormindo), pelo seu relógio cuco, que tem, literalmente, “the Fueher’s face”, e pela música que perpassa o filme inteiro e repete o verso “So we heil, heil...”. O eco da saudação, combinado ao trabalho em ritmo alucinante, deixam Donald maluco. Interpretando, podemos pensar que, segundo a visão do filme, apenas loucos compactuariam com essa política nazista.

Algumas partes de Der Fueher Face mostram situações extremas para gerar humor e repulsa ao mesmo tempo, como na fala “Que privilégio vocês têm em ser nazistas, por trabalharem 48 horas por dia para o Fueher!”. Outro momento em que a crítica antinazista é muito forte é num trecho da música: “Quando o Fueher diz: nós nunca seremos escravos!/ Nós saudamos, saudamos, mas ainda trabalhamos como escravos/ Enquanto o Fueher pragueja e mente e grita e fica furioso/ Nós saudamos, saudamos e trabalhamos para os nossos túmulos”. Assim como a maioria dos curtas produzidos nessa época, Der Fueher face termina de um jeito patriótico: Donald acorda, percebendo que era apenas um pesadelo e, vestido num pijama estampado com a bandeira dos EUA, beija uma miniatura da Estátua da Liberdade. Em seguida, aparece o rosto de Hitler no centro da tela e um tomate é jogado em sua cara – impossível ser mais explícito.



Education for death, por outro lado, tem um tom bem mais sério e não possui nenhum personagem da Disney. O curta mostra a trajetória de um menino alemão, Hans, desde o seu nascimento até a morte, passando por toda a sua educação nos moldes nazistas. Num exemplo altamente irônico de como o garoto seria educado, o narrador diz que os contos de fada foram distorcidos e que Hans aprendeu que a bruxa má da Bela Adormecida era a democracia, a princesa era a Alemanha (representada por uma mulher viking, gorda e bêbada) e o príncipe era Hitler. Segundo o narrador, “a distorção desse conto tem o propósito de moldar a jovem mente nazista”. Assim como no curta Reason and Emotion, no entanto, o que não se evidencia é que a própria Disney estava moldando a mente das crianças e dos adultos, não só estadunidenses, mas de todos que assistiam seus filmes. De certa forma, muito do que a Disney, representando os EUA, criticava, o próprio país fazia de maneira bastante similar.

Na escola, Hans aprende que os fracos e covardes devem ser exterminados, que os alemães são "a raça superior" e que todas as outras "raças" serão escravizadas. Para causar horror num país de maioria protestante, a bíblia se transforma em Mein Kampf e a cruz de Cristo se transforma em uma espada com a suástica. Hans é visto como um ser bestializado, com tampões em seus olhos para não ver além do que está à sua frente, com um instrumento em sua boca que não permite que ele fale “nada que o partido não queira” e com correntes que o ligam aos outros militares. O filme termina com o narrador dizendo que Hans e seus camaradas marcham sobre os direitos dos outros e que a educação de Hans está completa: sua educação para a morte (assim, os soldados marchando se transformam em túmulos). Apesar de toda essa “demonização” dos nazistas, em momento algum Hans ou os outros soldados são colocados como seres intrinsecamente maus ou como culpados de suas próprias condições – eles são as vítimas da lavagem cerebral arquitetada pelos seus superiores, em especial por Hitler.

Mesmo com toda essa propaganda antinazista da Disney, existem fatos que sugerem que Hitler e Mussolini seriam fãs dos filmes da empresa – pelo menos até serem feitos curtas que os ridicularizavam. Segundo o jornal Der Spiegel on-line, teriam sido encontradas aquarelas de personagens da Disney dentro de um quadro que pertencia a Hitler. Além disso, o ditador alemão possuía um exemplar de Branca de Neve e os Sete Anões e teria ganhado de Goebbels 12 animações do Mickey, o que, de acordo com Natania Nogueira, do blog Gibiteca.com, “teria inspirado Hitler a criar uma produtora de desenhos animados para servir aos propósitos de seu regime ditatorial”. Em Nimbus Libéré, sombrio curta produzido pela Alemanha para ser exibido na França de Vichy, Pateta, Mickey, Donald, Popeye e Gato Félix aparecem em aviões estadunidenses bombardeando a população civil francesa, que espera que a ajuda chegue desses mesmos aviões.

Segundo Henry Giroux, autor de A Disneyzação da cultura infantil, o conhecimento, os valores, e a construção do cidadão não estão apenas nas escolas ou nos locais privilegiados da alta cultura, e as identidades individuais e coletivas das crianças e jovens são amplamente moldadas política e pedagogicamente. A Disney, indubitavelmente, transmite valores e molda as mentes, não só dos mais jovens, como dos adultos também. Giroux defende, além disso, que a Disney “promove a construção de um mundo fechado e total de encantamento, pretensamente livre da dinâmica da ideologia, da política e do poder”. No entanto, observa-se justamente o oposto nos curtas analisados: a ideologia, a política e o poder são explicitamente tratados nos filmes. Jogar um tomate na cara do inimigo ou mostrar o rato mais querido da América como um nobre soldado (o que acontece em Out of the frying pan into the firing line), me parece bastante explícito. O que é mais evidente, no entanto, é que, indubitavelmente, a produção da Disney na década de 40 foi altamente influenciada pela 2ª Guerra Mundial. Seja através de Mickey como soldado, de Donald como um pagador de impostos ou mesmo de Minnie como a dona-de-casa que guarda a gordura da frigideira, um ponto fica claro: Disney, definitivamente, foi à guerra.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Kipi cáumi e deixa de recalque

Eu fico meio espantada com a quantidade de páginas no Facebook que estimulam uma zoação de mau gosto às custas de um sentimento que, acreditem, não é nada engraçado: a inveja. A maioria das pessoas só pensa nas "inimigas" (como são chamadas as supostas invejosas) como uma espécie de vampiras sugadoras de energias positivas ou algo assim. Enquanto as invejadas costumam sair como as vítimas da história, as "invejosas" ou "recalcadas" são queimadas em posts e em letras de funk.

Vem cá com a tia, vamos pensar um pouquinho. Eu acho que ninguém que sente inveja sente porque acha legal, e ninguém sente de propósito pra irritar uma pessoa de que não gosta - ou até de que gosta! Quantas vezes você não sentiu inveja de um amigo ou parente a quem ama muito? Pode assumir! Eu acho que todo mundo divide a inveja em dois tipos: uma "boa" (ou "não destrutiva", a famosa "inveja branca") e uma ruim. Vamos exemplificar: a boa é o que você sentiria se a sua melhor amiga fosse viajar pro seu destino dos sonhos. Você fica muito feliz por ela, é claro, mas sente uma invejinha por querer ir pra lá também. A ruim, por outro lado, seria o que você sentiria se aquela pessoa de quem você não gosta vai pra esse seu paraíso na Terra. Exemplo bem idiotinha que imagino que todo mundo já devia ter em mente, mas enfim.

A maioria das pessoas não tem problemas com essa "inveja branca", até mesmo porque ela geralmente é uma coisa específica: uma blusa, uma viagem, seu cabelo, essas coisas. O problema é a inveja ruim (ok, estou chovendo no molhado até agora, mas já estou chegando no ponto). Muitas pessoas acreditam em energias negativas que a pessoa invejosa carrega e coisas assim, mas não acredito muito nisso. Se existirem, acho que elas prejudicam mais quem sente a inveja do que o invejado em si. E isso me leva - finalmente! - ao meu ponto principal: quem sofre com a inveja é sempre o invejoso.

A inveja é um sentimento que pode ser extremamente autodestrutivo. Creio que uma inveja negativa - obsessiva, degenerativa - seja fruto de uma baixa autoestima, e acho que isso é uma das piores coisas com que alguém pode ter que conviver. A inveja reforça sua baixa autoestima e, principalmente quando você sente raiva do invejado, você sente mais raiva de si mesmo. A inveja é, para mim, um discurso de ódio a si próprio, em última instância. Para quem já viu isso que estou falando bem de pertinho, isso não me parece nenhum exagero.

Não quero salvar o mundo nem resolver todos os problemas da humanidade, mas, se eu puder deixar algum conselho pra possíveis leitores desse texto, digo que procurem ajudar quem vocês perceberem que podem sentir essa inveja autodestrutiva. Como a inveja é provavelmente o sentimento mais reprimido na nossa sociedade - já pararam pra pensar nisso? -, acho difícil encontrar alguém nitidamente invejoso. Se não puder fazer nada diretamente para alguém, acho que pelo menos todos nós podemos parar mandar recadinhos maldosos pras "recalcadas de plantão".

Por último: quem tiver se identificado com essa inveja destrutiva deve procurar alguma ajuda. Um amigo em quem confia, um terapeuta, um diário, qualquer coisa. Vamos colocar "Beautiful", da Christina Aguilera pra tocar e vamos aumentar essa autoestima (estou me sentindo professora de academia dizendo isso). Keep calm, queridos, e deixem de recalque ;) 


sábado, 19 de abril de 2014

Don't judge a book by its cover

Rodando aí pela internet, percebi que a maioria dos posts sobre livros envolvem belas fotos cults do livro que está sendo resenhado. Muitas vezes, nem está sendo resenhado, só está sendo belamente exposto como um belo livro com uma bela capa numa bela fotografia. Até aí, nenhum problema. Acho lindas as fotos de alguns blogs, e elas definitivamente são um eficaz meio de propaganda. A questão é que esses livros que são expostos pela capa e não pelo que tem dentro acabam sendo uma metáfora para outras coisas que vemos na vida.


Numa era instagrâmica e facebookiana, onde tudo é feito para ser visto e aprovado pelo outro, é comum que as editoras tenham mais preocupação com o visual dos livros lançados. Algumas capas são verdadeiras obras de arte: as minhas favoritas são as da Intrínseca e da Zahar; a Record e a Rocco acertam em umas e erram em outras; a CosacNaify traz um conceito diferente e faz o leitor experienciar a leitura de uma forma única (em "A Fera na Selva", de Henry James, por exemplo, as páginas vão escurecendo à medida que o leitor espera um possível clímax para a história).

Mas não é a mesma história em qualquer edição?

Se a versão não for adaptada e se não houver uma diferença muito gritante nas traduções, a história é sim a mesma. Qual é o problema de ter um livro "feio" então?

Não quero parecer hipócrita de forma alguma. Eu tenho vários livros lindos (ainda farei um post mostrando eles!) que ficam embelezando a minha estante e, sempre que vou procurar algum livro pra comprar, tento escolher o mais bonito, se a diferença de preço não for muito grande. No entanto, também tenho muitos livros "feios": velhos, com capas sem graça ou feiosas mesmo, emendados com durex... E muitos deles foram alguns dos melhores livros que já li na minha vida. A primeira vez que li 'O morro dos ventos uivantes"  numa edição não adaptada, me defrontei com um livro nada atrativo: pequeno, de letra miúda, velho, com uma pintura horrorosa na capa... E está no meu Top 5 até hoje. O mesmo acontece com "O apanhador no campo de centeio". A capa da minha edição é a coisa mais sem graça ever made na história das capas de livro: fundo cinza com letras amarelas. Sem desenho, sem orelha, sem contracapa, sem informações sobre o autor, sem nada, e isso não fez a menor diferença na minha reação quando li a história de Holden Caufield.

Tenho plena consciência de que livros hoje em dia são também objetos de decoração e, de novo, não vejo nada errado em serem. No entanto, sem querer parecer uma velha purista e nostálgica (mas já parecendo), acho que devemos sempre lembrar da primeira função dos livros: nos transmitirem o que está dentro deles, não o que está fora. Que haja muito espaço nas nossas prateleiras para exibirmos os livros bonitos, mas que também sempre haja lugar em nossos corações para os feiosos e imperfeitos.

E que isso não sirva só para os livros, viu? ;)


Para fechar, duas fotos de livros feios que eu adoro!


Capa horrorosa do primeiro livro que comprei do meu autor favorito <3

Provavelmente, a pior capa que tenho num dos mais brilhantes livros que já li

sexta-feira, 18 de abril de 2014

"Hoje eu quero voltar sozinho"

Depois de um mês e meio sem postar devido a problemas com a internet, estou de volta :D

Minha dica de hoje é sobre um filme maravilhoso! Fui essa semana ver o premiado "Hoje eu quero voltar sozinho", dirigido por Daniel Ribeiro, e me apaixonei completamente! Baseado no curta "Hoje eu não quero voltar sozinho", o filme conta a história de Léo (Guilherme Lobo), um adolescente cego que busca independência dos pais, ao mesmo tempo que se lida com sua primeira paixão. Antes de ser um filme gay, "Hoje eu quero voltar sozinho" é uma história de amor - infinitamente melhor que qualquer Nicholas Sparks, diga-se de passagem. A história é simples; o filme é singelo, delicado, sutil. Sem dúvida nenhuma, um dos filmes mais bonitos que vi EVER. 


Além da fofura extrema da história em si, a trilha sonora é tão incrível quanto o filme. No curta, a música principal é "Janta", do Marcelo Camelo com a Mallu Magalhães. No filme, é a linda "There's too much love", da banda escocesa Belle & Sebastian, que embala o romance de Léo e Gabriel (Fábio Audi).


O filme está em cartaz nas seguintes cidades:


Quem quiser mais informações, visite a página do filme no Facebook :)